«Se uma onda de problemas te atingir, surfe nela!» — proclamava o slogan publicitário.
Do outdoor, encarava-me uma mulher que poderia ser tanto uma top model quanto uma campeã mundial de dança esportiva: barriga chapada, seios volumosos, cabelos longos até a cintura fina como um fio. A beldade sorria feliz e despreocupada, abraçando suavemente com um braço uma prancha de surfe, com a qual, supostamente, planejava domar essa tal onda.
Raios! Raios! Raios!
Eu já estava há duas horas parada naquela estrada, analisando placas de carros desconhecidos, mensagens publicitárias e o mau tempo de inverno, sem que o engarrafamento desse sinais de acabar. Do lado de fora do carro, uma chuva cinzenta misturava-se com neve úmida, os limpadores de para-brisa rangiam irritantemente contra o vidro, e o ponteiro do combustível descia lenta, mas implacavelmente, rumo ao zero. O celular, piscando para mim em despedida com um alegre mapa vermelho de engarrafamentos — dez de dez pontos! —, havia desligado há uns vinte minutos.
Desanimada, encostei a testa no volante e quase soltei um uivo de frustração. Não, comparada às pessoas que estavam lá fora, ensopadas por essa mistura de neve e chuva, eu até que estava confortável! O carro, embora velho como uma múmia egípcia e nem sequer meu, mas sim de um colega generoso, ainda arrastava seu traseiro enferrujado pela cidade, ajudando-me no trabalho dentro de suas modestas capacidades. Pena que eu teria de devolvê-lo em breve, assim que o colega saísse da licença médica. E então, seria um “olá” de novo às filas de ônibus, às paradas úmidas e ao metrô abafado, lotado de passageiros como uma lata de sardinha.
Então, ter um carro era bom. Mas, fora isso, todo o resto de positivo nos últimos dias acabava por aí, e a realidade começava: meu período de experiência de três meses no novo emprego estava chegando ao fim, e eu ainda não tinha certeza se assinariam meu contrato. O aluguel do apartamento pesava no bolso, o proprietário ameaçava aumentar o valor, e eu não tinha amigos próximos ou familiares naquela cidade imensa. E como teria? Acabei de me mudar, meus pais e amigos ficaram na minha cidadezinha do interior, enquanto eu me agarrava a esse emprego, trabalhando de manhã até a noite: sem vida pessoal, sem descanso, só engarrafamentos, lanches apressados e litros de café, que já estavam me dando dor de estômago.
Fui arrancada da realidade por uma buzina furiosa de algum carro atrás de mim. Descolando a testa do volante, percebi, surpresa, que o engarrafamento começava a se mover. Na velocidade de um caracol ferido ou de uma minhoca em coma, mas, pela primeira vez naquela última meia hora, estávamos andando. Estamos vivos! Adeus, outdoor odioso com sua vida perfeita, vá estragar o humor de outra pessoa!
Como pude, coloquei meu ferro-velho em movimento e rastejei para a frente junto com os outros motoristas. Depois de uns trinta minutos, consegui sair da avenida lotada de carros para uma ruazinha lateral e, em seguida, mergulhar nos pátios escuros. Graças a Deus — lar, doce lar!
Comprei rapidamente o essencial numa lojinha no térreo do prédio e subi para meu aconchegante apartamento de um quarto. Nada de especial, mas limpinho, arrumado, com uma cozinha decente (cinco metros quadrados inteiros, espaço suficiente para a alma aventureira se expandir), terceiro andar, janelas para o pátio. No verão, até que era agradável: flores, árvores, crianças brincando no parquinho, mães passeando com carrinhos de bebê. Agora, claro, tudo parecia cinzento e desanimador, mas fazer o quê? Dezembro nunca é gentil com quem gosta de piqueniques e caminhadas ao ar livre. Enfim, depois de saborear uma sopa de anteontem, desabei no único sofá do apartamento e comecei a trabalhar no relatório.
Ou melhor, na apresentação.
Como todo estagiário, ao fim do período de experiência, eu precisava entregar uma bela narrativa sobre como sou indispensável para a empresa e como todos ao redor se beneficiariam se eu continuasse trabalhando ali, no cargo de analista júnior do departamento de consumo. Uma bobagem sem tamanho, né?
Como se minha apresentação fosse decidir alguma coisa. Somos oito pessoas concorrendo a uma única vaga, eu não sei bajular chefes nem fazer olhinhos sedutores para o supervisor, e, além de mim, há outros quatro candidatos competentes, sendo três deles homens, que não vão casar, sair de licença-maternidade ou abandonar o emprego por causa de família. Então, minhas chances de conseguir essa vaga são, digamos, objetivamente pequenas.
Mas como eu quero isso, meu Deus! Um emprego decente, uma empresa de prestígio, um salário bom, perspectiva de crescimento na carreira! Se eu tivesse um pouquinho de sorte, com o tempo me estabeleceria, traria meus pais do interior, quem sabe até casaria. Afinal, eu não sou de ferro, sou?
Com esses pensamentos, fiquei acordada até tarde da noite, planejando cuidadosamente meu discurso, calculando cada detalhe; até ensaiei um pouco diante do espelho. O processo acabou sendo bem envolvente, e logo eu, enrolada num cobertor como se fosse uma toga romana, desfilava orgulhosa pelo único cômodo, declamando dramaticamente meu texto simples e gesticulando para dar mais ênfase. Ah, se alguém visse isso de fora, com certeza chamaria os paramédicos.
Enfim, fui dormir às quatro da manhã e, como era de se esperar, não ouvi o despertador.
Se você já viu um esquilo escaldado, pode imaginar como foi minha manhã para me arrumar para o trabalho: pulando numa perna só para vestir a meia-calça, passar a blusa, preparar um sanduíche qualquer, pentear o cabelo e arrumar a bolsa, tudo isso em cinco minutos. Pois foi exatamente assim.
À minha espera na porta estavam os sapatos de salto altíssimo que eu havia separado na noite anterior. Uma criação insana de alguma casa de moda, que consegui numa liquidação com um desconto enorme. Mesmo com o desconto, o preço ainda doeu um pouco, mas decidi que sobreviveria; ninguém nunca morreu por passar uma semana só com macarrão sem manteiga. Sapatos lindos, elegantes e estilosos, vi neles um símbolo, uma espécie de promessa da vida maravilhosa que me aguardava. Não eram adequados para o clima, claro, mas na apresentação eu certamente estaria impecável.
Saí de casa só na terceira tentativa. Primeiro, esqueci o celular na cozinha e tive que voltar do primeiro andar. Na segunda vez, percebi que deixei a bolsa no corredor. Na terceira, porque as chaves do carro não estavam na bolsa! Tive que voar de volta e revirar todas as prateleiras e bolsos. A busca levou pelo menos dez minutos. No fim, cheguei ao carro irremediavelmente atrasada, além de irritada, faminta e furiosa com o mundo inteiro e comigo mesma em particular. Provavelmente por isso aconteceu o que aconteceu.
Na verdade, nem entendi direito o que foi. Talvez a garoa irritante da noite anterior tenha se transformado numa fina camada de gelo no asfalto, ou talvez eu tenha perdido o costume de andar de salto, mas meu pé direito escorregou de repente para o lado. Soltei um grito, perdendo o equilíbrio, o chão pareceu se erguer contra mim, bateu na minha nuca, uma centena de luzes brilhou diante dos meus olhos — e eu apaguei.
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