Prólogo

O vento cortante uivava de forma inquietante, infiltrando-se pelas frestas da velha janela de madeira, anunciando a tempestade inevitável. Aquele som perturbador fazia-a estremecer a cada vez, parando no meio do quarto para inspirar profundamente o ar frio da noite.

«Estou fazendo tudo certo… Este tempo, igual ao do dia do meu nascimento, é um sinal do alto. Eu tenho que fazer isso!» — os pensamentos na mente da jovem giravam tão freneticamente quanto seus pés sobre o velho assoalho, enquanto revirava armários e gavetas em busca do que realmente importava ao seu coração. Seus cabelos ruivos, como uma nuvem de fogo, brilhavam aqui e ali, mal acompanhando o ritmo agitado de seus passos.

À meia-noite, tudo precisava estar concluído. Um novo dia marcaria o início de uma nova vida. Em um novo mundo.

Na penumbra do pequeno quarto, iluminado apenas por um par de velas, a nuvem ruiva finalmente parou e desabou no chão, junto com uma pesada bolsa, costurada especialmente para essa jornada.

Todas as cartas foram enviadas.

Todos os assuntos, resolvidos.

Todas as coisas necessárias, reunidas.

Restava apenas dar o último passo. Rumo ao desconhecido, que há tanto tempo a atraía. Não era por acaso que ela havia encontrado esse caminho.

Fora com as dúvidas. Não havia ninguém ali por quem ela sentiria saudades, nem quem sentiria sua falta. À frente, uma aventura emocionante a esperava. Só precisava dar certo!

Com um esforço de vontade, expulsou da mente os pensamentos que a atormentavam, traçou um círculo ao seu redor com giz e começou a preenchê-lo com símbolos especiais, dispondo ervas e pós em lugares específicos. Ela havia se preparado por tanto tempo para esse momento, repassando tudo em sua cabeça, mas agora, na hora de agir, suas mãos tremiam, e um nó apertado de incerteza se formava em seu peito. Ainda assim, não podia recuar. Era tarde demais.

Por fim, os últimos elementos do círculo estavam prontos. Restava apenas posicionar-se no centro e acender, com a chama da vela, um maço de ervas secas — o último passo para abrir o portal para uma nova vida.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite.

Ela se levantou com as pernas trêmulas, a bolsa pesando dolorosamente em seu ombro, e estendeu a mão com as ervas secas em direção à vela. Um relâmpago repentino cortou o céu ao meio, iluminando por um instante o quartinho com uma luz ofuscante e a figura esguia que ali estava, com sua juba de cabelos ruivos, semelhante a uma nuvem banhada pelo sol poente. O estrondo do trovão que veio em seguida, com seu rugido ensurdecedor, fez a jovem estremecer por completo, mas sua mão não soltou o pequeno buquê de ervas. Com o último eco do trovão, a silhueta indefinida da viajante ruiva foi engolida pelo portal que se abriu no meio do quarto escuro.